Lei do Inquilinato: direitos, deveres e como resolver conflitos

  • Raphael Lucca
Publicado dia
17/5/2024
·
20 min.
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Lei do Inquilinato: direitos, deveres e como resolver conflitos
  • Arbitragem
  • Imóveis
  • Locação

A Lei do Inquilinato (Lei nº 8.245/1991) é a lei que regula o aluguel de imóveis urbanos no Brasil. Ela define o que o locador e o inquilino devem fazer, quais garantias podem ser exigidas, quando o contrato termina e como o imóvel pode ser retomado.

A maior parte dos conflitos de locação se resolve comparando o problema com um artigo específico da lei. Este guia organiza os direitos e deveres de cada lado, mostra o que mudou com a Lei 12.112/2009 e indica o caminho para resolver cada tipo de disputa: conversa documentada, notificação, acordo, arbitragem ou Judiciário.

A quem a Lei do Inquilinato se aplica

A lei vale para a locação de imóveis urbanos, residenciais ou comerciais, inclusive a locação para temporada. Algumas locações ficam fora dela e continuam regidas pelo Código Civil ou por leis especiais (art. 1º, parágrafo único):

  • imóveis da União, dos estados, dos municípios e de suas autarquias e fundações;
  • vagas autônomas de garagem e espaços de estacionamento;
  • espaços destinados à publicidade;
  • apart-hotéis, hotéis-residência e equiparados que prestam serviços regulares;
  • arrendamento mercantil (leasing).

Quando há mais de um locador ou mais de um inquilino no mesmo contrato, eles respondem de forma solidária, salvo se o contrato disser o contrário (art. 2º).

Arbitragem e lei do inquilinato

Deveres do locador

O art. 22 lista as obrigações de quem aluga o imóvel. As que mais geram conflito são estas:

  • entregar o imóvel em condições de uso para a finalidade contratada (inciso I);
  • garantir o uso pacífico do imóvel durante a locação (inciso II);
  • responder pelos vícios ou defeitos anteriores à locação (inciso IV);
  • entregar, se o inquilino pedir, descrição detalhada do estado do imóvel no início do contrato (inciso V);
  • dar recibo discriminado de tudo o que o inquilino pagar, sem quitação genérica (inciso VI);
  • pagar as taxas de administração imobiliária e de intermediação, incluindo a análise cadastral do inquilino e do fiador (inciso VII);
  • pagar impostos, taxas e o seguro complementar contra fogo, salvo disposição expressa em contrário no contrato (inciso VIII);
  • pagar as despesas extraordinárias de condomínio (inciso X).

Deveres do inquilino

O art. 23 trata do outro lado. O inquilino deve:

  • pagar pontualmente o aluguel e os encargos; sem data no contrato, o vencimento é o sexto dia útil do mês seguinte (inciso I);
  • usar o imóvel para o fim combinado e tratá-lo com o mesmo cuidado que teria se fosse seu (inciso II);
  • devolver o imóvel no estado em que o recebeu, salvo o desgaste do uso normal (inciso III);
  • avisar o locador de danos cujo reparo caiba a ele e reparar os danos que ele próprio, familiares ou visitantes causarem (incisos IV e V);
  • não alterar a forma interna ou externa do imóvel sem consentimento prévio e escrito (inciso VI);
  • permitir a vistoria, com dia e hora combinados (inciso IX);
  • pagar contas de consumo, o prêmio do seguro-fiança e as despesas ordinárias de condomínio (incisos VIII, XI e XII).

Ceder a locação, sublocar ou emprestar o imóvel depende de consentimento prévio e escrito do locador. O silêncio dele não vale como autorização (art. 13). Exigências como essa mostram por que conhecer as regras do contrato de aluguel é a melhor forma de proteger os interesses de locador e locatário.

Quem paga o quê: condomínio, reparos e benfeitorias

Boa parte das disputas é sobre dinheiro que um lado acha que é do outro. A lei responde a maioria delas:

DespesaQuem pagaBase na lei
Condomínio ordinário: salários do condomínio, limpeza, água e luz das áreas comuns, manutenção de elevadores e pequenos reparosInquilinoArt. 23, XII e § 1º
Condomínio extraordinário: obras estruturais, pintura de fachada, equipamentos de segurança, decoração das áreas comuns e fundo de reservaLocadorArt. 22, X e parágrafo único
Defeitos que já existiam antes da locaçãoLocadorArt. 22, IV
Danos causados pelo inquilino, familiares ou visitantesInquilinoArt. 23, V
IPTU e taxas do imóvelLocador, salvo cláusula expressa transferindo ao inquilinoArt. 22, VIII
Benfeitorias necessárias feitas pelo inquilinoLocador indeniza, mesmo sem autorização, salvo cláusula em contrárioArt. 35
Benfeitorias úteisLocador indeniza se as autorizou, salvo cláusula em contrárioArt. 35
Benfeitorias voluptuárias (de embelezamento)Não são indenizadas; o inquilino pode retirá-las se não danificar o imóvelArt. 36

O inquilino só é obrigado a pagar as despesas ordinárias de condomínio se houver previsão orçamentária e rateio mensal comprovados, e pode pedir essa comprovação a qualquer tempo (art. 23, § 2º).

Reparos urgentes que cabem ao locador precisam ser aceitos pelo inquilino. Se durarem mais de dez dias, ele tem direito a abatimento proporcional do aluguel; se passarem de trinta dias, pode encerrar o contrato (art. 26).

Direitos do inquilino que mais aparecem em disputas

O locador pode entrar no imóvel quando quiser?

Não. O locador deve garantir o uso pacífico do imóvel (art. 22, II), e a vistoria depende de dia e hora combinados antes (art. 23, IX). Visitas sem aviso, exigências fora do contrato ou pressão para o inquilino sair sem fundamento legal são descumprimento contratual e podem ser registradas por notificação.

Preferência na compra do imóvel

Se o locador decidir vender, o inquilino tem preferência para comprar em igualdade de condições com terceiros. A comunicação precisa informar preço, forma de pagamento, ônus reais e onde examinar a documentação, e o inquilino tem 30 dias para aceitar integralmente a proposta (arts. 27 e 28).

A preferência não alcança doação, permuta, venda judicial e outras situações do art. 32. O inquilino preterido pode pedir perdas e danos ou, se o contrato estava averbado na matrícula pelo menos 30 dias antes da venda, depositar o preço e ficar com o imóvel em até seis meses do registro (art. 33).

Devolver o imóvel antes do prazo

Durante o prazo do contrato, o locador não pode pedir o imóvel de volta, mas o inquilino pode devolvê-lo pagando a multa combinada, proporcional ao tempo que falta cumprir (art. 4º).

Se a mudança for por transferência de trabalho determinada pelo empregador, a multa é dispensada, desde que o locador seja avisado por escrito com pelo menos 30 dias de antecedência (art. 4º, parágrafo único).

Na locação por prazo indeterminado, o inquilino encerra o contrato com aviso escrito de 30 dias. Sem o aviso, o locador pode cobrar um mês de aluguel e encargos (art. 6º).

Direitos do locador: aluguel, reajuste e garantias

O valor do aluguel é livre, mas não pode ser fixado em moeda estrangeira nem atrelado ao câmbio ou ao salário mínimo (art. 17).

As partes podem combinar novo valor a qualquer tempo; sem acordo, locador ou inquilino podem pedir a revisão judicial depois de três anos de contrato ou do último acordo, para ajustar o aluguel ao preço de mercado (arts. 18 e 19). Em disputas como essa, comparar custos e prazos da arbitragem em contratos de aluguel ajuda a decidir qual caminho seguir.

O locador pode exigir uma única garantia por contrato: caução, fiança, seguro-fiança ou cessão fiduciária de quotas de fundo de investimento (art. 37). Exigir mais de uma é contravenção penal (art. 43, II).

A caução em dinheiro não pode passar de três meses de aluguel e deve ficar em caderneta de poupança (art. 38, § 2º).

A comparação entre as modalidades, com custos e riscos de cada uma, está no guia fiador, seguro-fiança ou caução: qual escolher. Sem nenhuma garantia no contrato, o locador pode cobrar o aluguel antecipadamente até o sexto dia útil do mês que vai vencer (art. 42).

Quando o contrato termina e o imóvel pode ser retomado

Seja qual for o motivo do fim da locação, a ação do locador para reaver o imóvel é a de despejo (art. 5º). Trocar a fechadura, retirar móveis ou cortar serviços por conta própria não é permitido. Os motivos que autorizam a retomada dependem do tipo de contrato:

  • A qualquer tempo: mútuo acordo, infração legal ou contratual, falta de pagamento do aluguel e encargos, ou reparos urgentes exigidos pelo Poder Público (art. 9º).
  • Contrato residencial escrito de 30 meses ou mais: termina no fim do prazo, sem aviso. Se o inquilino continuar no imóvel por mais de 30 dias sem oposição, o contrato passa a prazo indeterminado e o locador pode encerrá-lo com 30 dias para a desocupação (art. 46).
  • Contrato residencial com menos de 30 meses ou verbal: prorroga-se automaticamente, e a retomada só vale nas hipóteses do art. 47, como uso próprio ou de familiar, demolição ou obra aprovada, ou vigência ininterrupta de mais de cinco anos.
  • Venda do imóvel: o comprador pode denunciar a locação com 90 dias para a desocupação, salvo se o contrato for por prazo determinado, tiver cláusula de vigência em caso de venda e estiver averbado na matrícula (art. 8º).

O passo a passo judicial, com liminar, purgação da mora e prazos, está em ação de despejo passo a passo. Quem já recebeu o mandado encontra os prazos de saída em ordem de despejo: prazos, defesa e acordo, e o locador cujo inquilino não quer sair tem o roteiro em desocupação de imóvel.

Lei do Inquilinato atualizada: o que mudou com a Lei 12.112/2009

A chamada "nova Lei do Inquilinato" não é uma lei separada. A Lei 12.112/2009 alterou vários artigos da Lei 8.245/1991, que continua sendo a lei em vigor. As mudanças mais relevantes para quem aluga:

  • Multa proporcional: a multa por devolução antecipada passou a ser proporcional ao período cumprido do contrato (art. 4º).
  • Garantia até a entrega das chaves: salvo cláusula em contrário, a garantia se estende até a devolução efetiva do imóvel, mesmo com o contrato prorrogado por prazo indeterminado (art. 39).
  • Saída do fiador: no contrato prorrogado por prazo indeterminado, o fiador pode se exonerar por notificação, mas continua responsável por 120 dias depois de notificar o locador (art. 40, X).
  • Novas liminares: passou a caber liminar de desocupação em 15 dias, com caução de três aluguéis, em casos como falta de pagamento em contrato sem garantia e falta de nova garantia depois de notificação (art. 59, § 1º, VI a IX).
  • Limite à purgação da mora: o inquilino não pode evitar o despejo pagando a dívida se já usou esse recurso nos 24 meses anteriores (art. 62, parágrafo único).
  • Prazos de saída: o mandado de despejo passou a ter 30 dias como regra, reduzidos a 15 em algumas hipóteses (art. 63).

Depois disso, a Lei 12.744/2012 incluiu o art. 54-A, sobre locações não residenciais construídas sob medida para o inquilino (built to suit), em que prevalece o que foi pactuado: o inquilino que sai antes paga a multa convencionada, limitada à soma dos aluguéis que faltariam até o fim do contrato.

Como resolver conflitos com base na Lei do Inquilinato

A lei diz quem tem razão; o que falta, em geral, é um caminho para fazer valer o direito sem meses de desgaste. A sequência que costuma funcionar:

  1. Identifique o artigo. Uma cobrança de condomínio extraordinário, uma vistoria sem aviso ou um reajuste fora do contrato têm resposta direta na lei. Saber qual é o artigo muda o tom da conversa.
  2. Registre por escrito. Recibos, laudo de vistoria de entrada, fotos e mensagens formam a prova. Pedidos feitos só por telefone não servem de prova depois.
  3. Notifique formalmente. Uma notificação extrajudicial em imóvel fixa o problema, o prazo e a proposta, e é exigida pela lei em situações como denúncia do contrato e pedido de nova garantia.
  4. Negocie com um terceiro neutro. Na conciliação ou na mediação, as partes fecham um acordo por escrito sobre valores, reparos ou data de saída.
  5. Arbitragem ou Judiciário. Se o contrato tem cláusula compromissória, o árbitro decide o conflito com sentença que tem os mesmos efeitos de uma sentença judicial (Lei 9.307/1996, art. 31). Sem cláusula, ou para a desocupação forçada, o caminho é o Judiciário.

A arbitragem resolve bem a cobrança de aluguéis, multas e danos e a rescisão do contrato. A retirada forçada do ocupante, porém, depende de ordem de um juiz, porque o árbitro não tem poder de polícia. Para imobiliárias, essa divisão de papéis fica mais clara ao conhecer as vantagens da arbitragem digital em aluguéis no dia a dia da gestão.

Os limites dessa divisão estão em despejo na arbitragem, e a forma de incluir a cláusula no contrato está em arbitragem em contratos de aluguel. Para que esse caminho esteja disponível desde o início, a cláusula de arbitragem no contrato de aluguel precisa estar bem redigida e aceita pelas partes.

Conflitos comuns e o caminho indicado

ConflitoO que a lei dizPrimeiro passo
Aluguel atrasadoFalta de pagamento autoriza o despejo (art. 9º, III), mas o inquilino pode purgar a mora em 15 dias da citação (art. 62, II)Notificação com valor e prazo; depois, acordo ou ação
Cobrança de condomínio extraordinário ao inquilinoÉ despesa do locador (art. 22, X)Pedir a discriminação das despesas (art. 23, § 2º)
Danos na devolução do imóvelInquilino responde pelo que passar do desgaste normal (art. 23, III)Comparar vistorias de entrada e saída
Reparo que o locador não fazDefeitos anteriores e estruturais são do locador (art. 22, I e IV)Notificar com prazo e guardar orçamentos
Venda sem oferta ao inquilinoPreferência de 30 dias (arts. 27 e 28)Verificar se o contrato está averbado na matrícula
Inquilino não sai no fim do contratoRetomada conforme arts. 46 e 47, sempre por ação de despejo (art. 5º)Notificação de desocupação com 30 dias, quando exigida

Para o atraso de aluguel, o guia inquilino inadimplente: o que fazer antes da Justiça detalha a sequência antes de qualquer processo.

O que conferir no contrato antes de assinar

Muitos conflitos nascem de cláusulas que a lei considera nulas ou de lacunas que ninguém percebeu. São nulas as cláusulas que tentam afastar os objetivos da lei, como a que proíbe a prorrogação do art. 47 ou afasta a renovação da locação comercial (art. 45). Antes de assinar, confira:

  • prazo do contrato (30 meses ou mais muda as regras de retomada);
  • índice e periodicidade do reajuste;
  • quem paga IPTU e seguro contra incêndio;
  • uma única modalidade de garantia;
  • laudo de vistoria de entrada anexo, com fotos;
  • cláusula de vigência em caso de venda, se o inquilino quiser proteção contra a venda do imóvel;
  • cláusula de arbitragem, se as partes quiserem resolver disputas fora do Judiciário.

Em contratos de adesão, comuns em locações administradas por imobiliárias, a cláusula arbitral só vale se estiver em negrito ou em documento anexo, com assinatura ou visto específico (Lei 9.307/1996, art. 4º, § 2º). O guia prático de cláusula arbitral mostra como redigir.

Próximo passo

Diante de um conflito de locação, a pergunta útil é: existe um artigo da lei que responde a isso e uma prova escrita de que a outra parte foi avisada?

Se as duas respostas forem sim, a maioria dos casos se resolve com uma proposta formal e um prazo. Se não houver prova, comece por ela.

A notificação extrajudicial da Arbitralis custa a partir de R$ 17 e registra o envio e a leitura. Se o contrato tiver cláusula arbitral, o conflito pode seguir para arbitragem 100% online, com custo fixo e sentença em até 30 dias.

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