Inteligência Artificial na Arbitragem: Impactos na Confidencialidade

  • Giully Bianchini
Publicado dia
6/8/2026
·
11 min.
de leitura
Inteligência Artificial na Arbitragem: Impactos na Confidencialidade
  • Arbitragem
  • Tecnologia
  • Departamento jurídico

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O CBMA já exige autorização prévia das partes para usar ferramentas de inteligência artificial nos processos que administra.
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Um advogado que cola um trecho de contrato sigiloso num modelo de IA de acesso público pode estar descumprindo uma obrigação contratual sem perceber — e o mesmo vale para o árbitro. A confidencialidade, um dos pilares que sempre distinguiu a arbitragem do processo judicial público, está sendo testada por uma ferramenta que nenhuma das partes previu quando assinou a cláusula compromissória. Este texto mostra o que já mudou na prática e o que ainda depende de regulamentação. A IA também tem revolucionado outras frentes do Direito, como mostra a ascensão da jurimetria na análise jurídica.

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O problema que a lei brasileira ainda não resolveu diretamente
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A arbitragem brasileira não dispõe de regramento específico sobre uso de inteligência artificial. Segundo artigo publicado no Migalhas sobre o tema, a ausência de regramento próprio não significa vácuo total: há acervo regulatório relevante de onde se pode extrair orientação, tanto no plano internacional quanto na experiência recente do Judiciário brasileiro. No plano internacional, o Silicon Valley Arbitration & Mediation Center publicou, em abril de 2024, diretrizes específicas sobre uso de IA em arbitragem, que vedam expressamente delegar a função decisória a ferramentas de inteligência artificial. No plano global, veja também o uso de inteligência artificial na arbitragem internacional, com seus avanços e diretrizes.

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O que já mudou na prática das câmaras brasileiras
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A resposta institucional já chegou ao Brasil. O CBMA — Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem — publicou uma portaria que estabelece diretrizes para uso de ferramentas de IA nos procedimentos que administra. De acordo com reportagem do Migalhas sobre a portaria, a secretaria do centro só pode utilizar ferramentas de IA mediante autorização prévia das partes, preservada a confidencialidade dos processos, uma regra que reconhece o potencial da tecnologia sem abrir mão do princípio que sustenta a escolha pela arbitragem em primeiro lugar. No Judiciário, o CNJ já avançou nessa direção ao autorizar o uso do ChatGPT para magistrados, com supervisão humana obrigatória.

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Por que o risco de confidencialidade é maior do que parece
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O risco não está apenas em compartilhar documentos por engano. Ferramentas de IA hospedadas por terceiros, em nuvem, podem processar e reter informações de formas que a parte que submeteu o documento não controla nem monitora depois. Isso significa que um advogado agindo de boa-fé, buscando apenas agilizar a revisão de um documento extenso, pode expor informação protegida por cláusula de confidencialidade sem qualquer intenção de fazê-lo — e sem conseguir reverter o compartilhamento depois que ele acontece. Vale lembrar que o próprio presidente do STF destacou a força da tecnologia para resolver conflitos.

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Frente regulatória O que estabelece
SVAMC (internacional, 2024)Veda delegar a decisão do mérito a ferramentas de IA
CNJ Resolução 615/25Parâmetro de referência para uso de IA no Judiciário brasileiro
CBMA (portaria, 2026)Exige autorização prévia das partes para uso de IA nos procedimentos

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O que isso significa para quem contrata uma câmara de arbitragem
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A confidencialidade sempre foi um dos argumentos centrais para escolher arbitragem em vez de processo judicial — um processo público, por definição, não protege informação estratégica de uma disputa societária ou comercial. Com IA entrando no fluxo de trabalho de advogados e árbitros, essa proteção deixa de ser automática e passa a depender de regras explícitas sobre quais ferramentas podem ser usadas, com quais dados, e mediante qual autorização. Empresas que avaliam onde levar uma disputa deveriam perguntar, hoje, se a câmara escolhida tem uma política clara sobre uso de IA — não como diferencial de marketing, mas como extensão prática do próprio sigilo que a arbitragem promete entregar. Essa transformação acompanha uma tendência mais ampla de digitalização da Justiça — veja como a conciliação digital representa a evolução da justiça empresarial.

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Leia também: 7 erros comuns em processos de arbitragem e como evitá-los

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O próximo capítulo dessa discussão ainda está sendo escrito
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Nenhuma dessas diretrizes — nem as internacionais, nem as brasileiras — resolve completamente o problema. Elas estabelecem princípios (autorização prévia, vedação à delegação decisória, preservação de dados) sem ainda oferecer um framework técnico detalhado sobre como verificar, na prática, se uma ferramenta de IA usada por um escritório terceirizado mantém o nível de proteção exigido. Para quem estrutura cláusulas compromissórias hoje, vale considerar incluir, desde já, uma previsão explícita sobre uso de ferramentas tecnológicas no procedimento — antes que a ausência dessa previsão vire ela mesma objeto de disputa.

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Sua câmara de arbitragem tem uma política clara sobre uso de IA no processamento de documentos confidenciais, ou isso ainda depende do bom senso de cada profissional envolvido?

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