Dispute board é um comitê de especialistas independentes, formado no início de um contrato de média ou longa duração, que acompanha a execução e ajuda as partes a evitar e resolver divergências enquanto o projeto anda. Ele pode ter um ou três membros e, conforme o contrato, emite recomendações ou decisões.
O mecanismo nasceu em obras de túneis nos Estados Unidos, em 1975, ganhou o mundo com o apoio de bancos multilaterais e da FIDIC e, no Brasil, está previsto na Lei de Licitações (Lei 14.133/2021) com o nome de comitê de resolução de disputas. Esse comitê é um dos mecanismos que se somam aos três tipos básicos de resolução de disputas usados em contratos e obras.
Segundo a Câmara de Comércio Internacional (ICC), o dispute board é um órgão permanente composto por um ou três membros, normalmente instalado na assinatura ou no início da execução do contrato. Embora seja mais comum na construção, também é usado em pesquisa e desenvolvimento, propriedade intelectual e acordos societários.
O procedimento é baseado em contrato, e não em lei: as partes definem as regras ou adotam as de uma instituição. Pelas regras da ICC, o comitê tem três funções:
A diferença entre os tipos está na força da conclusão que o comitê emite. As regras da ICC preveem três modelos:
| Tipo | O que emite | Efeito |
|---|---|---|
| Dispute Review Board (DRB) | Recomendações | Não vinculam de imediato; tornam-se obrigatórias se nenhuma parte objetar em 30 dias |
| Dispute Adjudication Board (DAB) | Decisões | Devem ser cumpridas imediatamente |
| Combined Dispute Board (CDB) | Em regra, recomendações; decisões em certas condições | Solução intermediária entre DRB e DAB |
Nos contratos-padrão da FIDIC, a edição de 2017 passou a chamar o comitê de Dispute Avoidance and Adjudication Board (DAAB), para reforçar o papel de prevenção. Quando uma parte discorda da decisão, a disputa pode seguir para arbitragem ou para o Judiciário, conforme o contrato.
Nos anos 1970, a indústria de túneis dos Estados Unidos estudou novas formas de lidar com as reclamações e os litígios que encareciam as obras.
O primeiro dispute board de que se tem registro foi usado em 1975, na segunda galeria do túnel Eisenhower, na rodovia I-70, no Colorado.
A primeira galeria havia sido aberta ao tráfego em 1973; o contrato da segunda, hoje chamada túnel Johnson, foi assinado em agosto de 1975, e ela foi inaugurada em dezembro de 1979, segundo a Federal Highway Administration.
A partir daí, o mecanismo se espalhou. A linha do tempo publicada pela Dispute Resolution Board Foundation (DRBF) registra os marcos principais:
O papel dos financiadores aparece na própria linha do tempo: ao tornar o comitê obrigatório em grandes projetos, o Banco Mundial levou o mecanismo a obras em vários países, em que dono da obra, empreiteiro e engenheiro muitas vezes vêm de sistemas jurídicos diferentes.
No setor público, a Lei 14.133/2021 autoriza nas contratações públicas o uso de meios alternativos de prevenção e resolução de controvérsias, "notadamente a conciliação, a mediação, o comitê de resolução de disputas e a arbitragem" (art. 151).
Esses meios valem para direitos patrimoniais disponíveis, como o reequilíbrio econômico-financeiro, o inadimplemento contratual e o cálculo de indenizações.
A mesma lei traz outras regras úteis:
Antes da lei federal, o Município de São Paulo regulou o tema na Lei municipal 16.873/2018, que trata dos Comitês de Prevenção e Solução de Disputas em contratos continuados da administração.
A lei paulistana prevê três naturezas de comitê (revisora, adjudicativa ou híbrida), composição de três membros, preferencialmente dois engenheiros e um advogado, e permite levar a decisão adjudicativa à Justiça ou à arbitragem em caso de inconformidade.
Nos contratos privados, não há lei específica: o dispute board existe porque as partes o preveem no contrato, em geral junto de uma cláusula de arbitragem para a etapa final. O movimento das empresas nessa direção é tema de empresas que adotam dispute boards em grandes contratos.
O dispute board mistura elementos de outros métodos, mas não se confunde com eles:
Para situar o dispute board entre os métodos fora do Judiciário, veja o que significa ADR e a diferença entre arbitragem e mediação.
O comitê tem custo contínuo, porque os membros acompanham o projeto do início ao fim. Por isso, tende a compensar em contratos com estas características:
Em contratos menores ou de curta duração, uma cláusula escalonada, com negociação ou mediação seguida de arbitragem, costuma resolver o mesmo problema com menos custo. A escolha do modelo de contrato também pesa: veja os tipos de contrato de construção e as tendências de arbitragem na construção.
Se o seu contrato não tem dispute board e a divergência já virou disputa, a arbitragem é o caminho para uma decisão definitiva fora do Judiciário. Entenda o que é arbitragem e como incluir uma cláusula arbitral nos seus contratos.
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