Sim: a sentença arbitral é título executivo judicial. O art. 515, VII, do Código de Processo Civil a coloca na mesma lista da sentença proferida por um juiz, e o art. 31 da Lei 9.307/1996 diz que ela produz, entre as partes, os mesmos efeitos da decisão judicial.
Na prática, se a parte vencida não cumprir a condenação, a vencedora pede o cumprimento de sentença direto ao Judiciário. Não há homologação, não há novo processo para reconhecer o direito e o juiz não rediscute o mérito do que o árbitro decidiu.
Judicial. A dúvida existe porque a decisão não vem de um juiz, mas a lei resolveu a questão de forma expressa: o art. 18 da Lei de Arbitragem define o árbitro como "juiz de fato e de direito" e afirma que a sentença dele não se sujeita a recurso nem a homologação pelo Poder Judiciário.
A classificação muda o caminho da cobrança. Títulos extrajudiciais, como o cheque ou o contrato assinado pelo devedor e por duas testemunhas (CPC, art. 784), abrem uma execução autônoma. A sentença arbitral vai para o cumprimento de sentença, a mesma fase usada para decisões judiciais, em que a defesa do devedor é mais restrita.
Um detalhe do art. 31: a sentença constitui título executivo quando é condenatória, isto é, quando manda pagar, entregar, fazer ou deixar de fazer algo. Uma sentença que apenas declara a existência ou a inexistência de uma obrigação produz efeitos entre as partes, mas não tem o que executar.
A execução começa pela própria sentença. Ela precisa cumprir os requisitos do art. 26 da Lei 9.307/1996: relatório, fundamentos, dispositivo, data e lugar. É no dispositivo que o árbitro resolve as questões e fixa o prazo para o cumprimento da decisão (art. 26, III).
Se a condenação não tiver valor definido, é preciso liquidá-la antes de cobrar. O próprio CPC prevê que o devedor seja citado no juízo cível para o cumprimento ou para a liquidação (art. 515, §1º), que segue as regras do art. 509.
O conteúdo completo da sentença e o caminho até ela estão no guia sobre como funciona a sentença arbitral.
| Etapa | O que acontece |
|---|---|
| Sentença proferida | O árbitro decide o mérito. Se for condenatória, a sentença já é título executivo judicial, sem homologação |
| Prazo de cumprimento | A parte vencida tem o prazo fixado na sentença para cumprir voluntariamente |
| Cumprimento de sentença | Sem pagamento, o credor pede o cumprimento no juízo cível; o devedor é citado para pagar em 15 dias; depois disso, incidem multa de 10% e honorários de 10% |
| Satisfação do crédito | Penhora, bloqueio e expropriação de bens do devedor até o pagamento |
O Superior Tribunal de Justiça já fixou, em recurso repetitivo, de quando conta o prazo da multa na sentença arbitral: 15 dias da juntada do mandado de citação cumprido, se o valor já é líquido, ou da intimação do advogado, se houve liquidação prévia.
É o Tema 893 (REsp 1.102.460/RJ, Corte Especial, julgado em 17/06/2015), listado na edição 122 da Jurisprudência em Teses do STJ.
A tese foi firmada sob o CPC de 1973, que previa a multa de 10% no art. 475-J; o CPC atual manteve a multa e somou os honorários de 10%.
Na impugnação, o executado só pode levantar as matérias do art. 525, §1º, do CPC:
O devedor também pode pedir a nulidade da sentença arbitral na própria impugnação, nas hipóteses do art. 32 da Lei 9.307/1996 (art. 33, §3º). Essas hipóteses tratam de vícios graves, como convenção de arbitragem nula, decisão fora dos limites da convenção ou desrespeito ao contraditório. Não permitem discutir se o árbitro decidiu bem.
Há um limite de tempo. A Terceira Turma do STJ decidiu que, se o cumprimento for iniciado depois dos 90 dias previstos para a ação de nulidade (art. 33, §1º), o devedor fica restrito às matérias do art. 525, §1º (REsp 1.900.136/SP, relatora ministra Nancy Andrighi, 2021).
Em 2022, a mesma turma reforçou que o prazo de 90 dias vale qualquer que seja o caminho escolhido: "a escolha entre a ação de nulidade ou a impugnação ao cumprimento de sentença em nada interfere na cristalização ou não da decadência" (REsp 1.928.951).
Outras decisões que sustentam a força da sentença arbitral estão reunidas em como as decisões judiciais têm reforçado a validade das sentenças arbitrais.
O árbitro decide, mas não tem poder de coerção direta sobre o patrimônio de ninguém. Segundo a tese 7 da edição 122 da Jurisprudência em Teses, é vedado a ele praticar atos executivos, e a execução forçada do direito reconhecido na sentença cabe ao Poder Judiciário.
Isso não reduz a autonomia da arbitragem. O juiz do cumprimento recebe um título pronto e só executa. Durante o procedimento, se for preciso um ato de força, como um bloqueio cautelar de valores, o árbitro pede a cooperação do juiz por carta arbitral (Lei 9.307/1996, art. 22-C; CPC, art. 237, IV).
Veja quem pode bloquear contas por carta arbitral e quando.
Se a convenção de arbitragem previu sigilo, o cumprimento pode tramitar em segredo de justiça, desde que a confidencialidade seja comprovada perante o juízo (CPC, art. 189, IV).
A dispensa de homologação vale para a sentença proferida no Brasil. A sentença arbitral proferida fora do território nacional precisa ser homologada pelo Superior Tribunal de Justiça para ser reconhecida ou executada aqui (Lei 9.307/1996, arts. 34 e 35).
Depois de homologada, ela também vira título executivo judicial (CPC, art. 515, VIII), e a execução corre na Justiça Federal (Constituição Federal, art. 109, X).
Não. O cumprimento forçado acontece sempre no Judiciário, no juízo cível competente. O tribunal arbitral encerra sua função ao comunicar a sentença às partes e decidir eventual pedido de esclarecimentos (arts. 29 e 30).
Não, se foi proferida no Brasil (art. 18). Só a sentença arbitral estrangeira depende de homologação, feita pelo STJ.
Não há recurso de mérito. A parte pode pedir esclarecimentos ao árbitro em 5 dias, salvo outro prazo acordado (art. 30), e pode pedir a nulidade ao Judiciário nas hipóteses do art. 32, em até 90 dias.
A Lei de Arbitragem não fixa um prazo próprio para iniciar o cumprimento. O prazo aplicável depende da prescrição da pretensão executiva em cada caso, e vale confirmar com um advogado antes de deixar a cobrança parada. Veja também quando a dívida prescreve.
A sentença arbitral só entrega todo o seu valor quando três pontos estão resolvidos:
O caminho completo começa antes do conflito. A notificação extrajudicial documenta a mora; a cláusula compromissória no contrato leva a disputa à arbitragem; e o processo arbitral termina em um título executivo judicial.
Para entender outros títulos que permitem cobrar sem processo de conhecimento, veja o que é título executivo e como uma cobrança se torna um.
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