"Cláusula compromissória" e "cláusula arbitral" são dois nomes para a mesma coisa: a previsão, feita no contrato, de que conflitos futuros serão resolvidos por arbitragem (art. 4º da Lei 9.307/96).
A diferença que a lei realmente faz é outra: cláusula compromissória × compromisso arbitral. A cláusula nasce antes de existir qualquer litígio; o compromisso é firmado depois que o conflito já surgiu, para submeter aquela disputa específica ao árbitro.
Os dois são espécies de convenção de arbitragem (art. 3º) e ambos afastam o Judiciário. O que muda é o momento, o objeto e o que cada um precisa conter.
Entender essa diferença evita a situação mais cara na prática: descobrir, no meio do conflito, que a cláusula do contrato não basta para começar a arbitragem.
Sim. A Lei 9.307/96 usa apenas a expressão "cláusula compromissória". "Cláusula arbitral" e "cláusula de arbitragem" são formas usadas no mercado e em contratos para designar o mesmo dispositivo. Não existe regime jurídico diferente para cada nome, e trocar um pelo outro no contrato não altera a validade da previsão.
A confusão costuma vir da semelhança entre "compromissória" e "compromisso". Os termos têm a mesma raiz, mas designam instrumentos distintos, com artigos próprios na lei. É essa distinção que o restante do texto explica.
| Critério | Cláusula compromissória (cláusula arbitral) | Compromisso arbitral |
|---|---|---|
| Base legal | Arts. 4º a 8º da Lei 9.307/96 | Arts. 9º a 12 da Lei 9.307/96 |
| Quando é firmado | Antes do conflito, no contrato ou em documento que a ele se refira | Depois que o conflito já existe |
| Objeto | Litígios que possam vir a surgir relativos àquele contrato | Um litígio determinado |
| Forma | Por escrito, no próprio contrato ou em documento apartado (art. 4º, §1º) | Judicial, por termo nos autos, ou extrajudicial, por escrito particular com duas testemunhas ou instrumento público (art. 9º) |
| Conteúdo obrigatório | A lei não lista requisitos mínimos além da previsão de arbitragem | Partes, árbitros ou entidade que os indicará, matéria e lugar da sentença (art. 10) |
| Exige outro acordo para começar? | Não, se indicar as regras de uma câmara ou a forma de instituir a arbitragem (art. 5º); sim, se for vazia | Não: ele próprio já institui a arbitragem daquele litígio |
O art. 4º define a cláusula compromissória como a convenção pela qual as partes de um contrato se comprometem a submeter à arbitragem os litígios que possam surgir relativamente a esse contrato. Ela é escrita num momento de colaboração, quando ninguém sabe ainda qual conflito, se algum, vai aparecer.
A lei faz três exigências que valem para qualquer cláusula:
Nas relações de consumo há uma camada adicional: o Código de Defesa do Consumidor considera nula a cláusula que determine a utilização compulsória de arbitragem (art. 51, VII, da Lei 8.078/90). O aprofundamento sobre o conceito, a base jurídica e os tipos de cláusula está no guia de cláusula compromissória.
A cláusula cheia já permite instaurar a arbitragem sem novo acordo: remete ao regulamento de uma câmara ou define a forma de instituição, como autoriza o art. 5º. A cláusula vazia apenas diz que eventuais conflitos irão para arbitragem, sem indicar câmara, regras ou forma de nomear árbitros.
A classificação é doutrinária, mas tem consequência direta na lei. É a cláusula vazia que obriga as partes a passar pelo compromisso arbitral, como mostra a seção seguinte.
O art. 9º define o compromisso arbitral como a convenção pela qual as partes submetem um litígio à arbitragem de uma ou mais pessoas. Ele pode ser firmado de duas formas:
Por tratar de um conflito concreto, o compromisso tem conteúdo mínimo obrigatório. O art. 10 exige:
O art. 11 lista cláusulas facultativas, como prazo para a sentença, autorização para julgamento por equidade e responsabilidade pelos honorários e despesas. Se o compromisso fixar os honorários do árbitro, ele constitui título executivo extrajudicial (art. 11, parágrafo único).
O compromisso arbitral aparece em dois cenários. No primeiro, não havia cláusula nenhuma, e as partes decidem, já em conflito, levar a disputa à arbitragem. No segundo, havia cláusula, mas ela era vazia e não dizia como instituir o procedimento.
Para o segundo cenário, a lei traça um caminho em etapas:
Na prática, a cláusula vazia leva ao Judiciário exatamente a etapa que as partes queriam evitar. Uma cláusula que já indica a câmara e o regulamento pula esse percurso, porque a arbitragem é instituída e processada conforme as regras escolhidas (art. 5º).
Como redigir essa cláusula completa, com modelo e checklist, é tema do guia prático para incluir a cláusula arbitral no contrato.
Cláusula e compromisso produzem o mesmo efeito central: retiram o conflito do Judiciário. Se uma das partes ajuizar ação mesmo assim, a outra deve alegar a convenção de arbitragem na contestação, antes de discutir o mérito (art. 337, X, do CPC).
Acolhida a alegação, o processo é extinto sem resolução do mérito (art. 485, VII).
Esse efeito não é automático. O juiz não conhece de ofício a convenção de arbitragem (art. 337, §5º), e a falta de alegação implica aceitação da jurisdição estatal e renúncia ao juízo arbitral (art. 337, §6º). Quem tem cláusula ou compromisso e é processado precisa levantar o ponto na defesa.
Nos dois casos, cabe ao árbitro decidir as questões sobre existência, validade e eficácia da convenção de arbitragem e do contrato que contém a cláusula (art. 8º, parágrafo único). As situações em que uma cláusula pode ser anulada ou considerada ineficaz estão reunidas no texto sobre invalidade da cláusula arbitral.
O critério é o momento em que você está:
Depois de instituída a arbitragem, por qualquer das duas vias, o procedimento segue as mesmas etapas, do requerimento à sentença, descritas no passo a passo do processo arbitral. Para outros termos da Lei 9.307/96, o dicionário jurídico da arbitragem traz as definições em linguagem direta.
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