
Cobrança é, antes de tudo, um ato de reconstrução da dignidade. Félix Almeida compartilha sua experiência à frente da área de cobrança da Porto, revelando uma visão transformadora sobre o setor de seguros e o papel da cobrança na reconstrução da dignidade financeira das pessoas. Com passagens por grandes instituições financeiras, ele detalha como tem conciliado eficiência, tecnologia e humanização nos processos, além de apontar caminhos para o futuro da cobrança no Brasil.
"Sempre atuei em bancos incumbentes, nacionais e internacionais. Há dois anos, vim para a Porto com a expectativa de atuar no banco, mas percebi que se tratava de um banco com alma de seguradora. Isso muda tudo: o olhar sobre o cliente, os parceiros, os processos. A seguradora tem um olhar mais humano, com foco em retorno social, não apenas financeiro."
"Programamos os próximos cinco anos com base nos últimos cinco. O lema é: 'o que nos trouxe até aqui é o que vai nos levar adiante'. Essa ideia se ancora na cultura de cuidado com as pessoas. A Porto acredita que o cuidado gera lucro — mas o primeiro passo é sempre o cuidado."
"A cobrança aqui não é para recuperar ativo, mas para reinserir o cliente no consumo do produto. Trabalhamos para recuperar o cliente, recolocá-lo no ciclo de crédito, sem abrir mão da rentabilidade. Isso é muito diferente do que vivi em 25 anos de carreira."
"Trouxe um olhar sobre processos. Cuidar de dez pessoas é uma coisa, de cem mil é outra. O desafio é escalar o cuidado. Organizar processos para atender o cliente com agilidade, sem mecanizar."
"Hoje, a superintendência de cobrança tem 80 pessoas. Lidamos com uma carteira de cerca de R$ 5 bilhões por mês, considerando clientes em atraso curto e longo. Cada real representa uma pessoa."
"É encaixar a necessidade do cliente no fluxo financeiro dele, de modo que ele volte a ser um bom pagador sem forçação. Por exemplo, se ofereço 90% de desconto à vista, mas ele só pode pagar em 60 vezes, então preciso escutá-lo. Recuperar naturalmente é ouvir."
"A fama de brutalidade vem da lógica de recuperar ativos. A mudança está em recuperar pessoas. Uma pessoa sem crédito é uma pessoa à margem da sociedade, sem dignidade. Quando devolvemos o acesso ao crédito, devolvemos a dignidade."
"Temos a 'mesa de exceção', que analisa o cliente fora da esteira massificada. Observamos idade, tempo de relacionamento, histórico de crédito, número de negativações, e entramos em contato direto. O fator humano é decisivo."
"Ela trouxe disponibilidade. Hoje, atendemos o cliente no tempo dele, com canais 24/7. A tecnologia ajudou muito, mas o contato humano ainda é insubstituível em muitos casos."
"Acredito totalmente. Toda lide deveria ser resolvida antes da judicialização. Arbitragem sem escuta é só uma decisão unilateral. Temos uma estrutura que permite conciliar e entender o cliente, especialmente quando a política não atende."
"Estar presente. Presença não é apenas física, é estar disposto a ouvir, a resolver. Digo ao meu time: ao atender um cliente, pense que você pode ser a resposta da oração dele na noite anterior."
"O Brasil ainda trata o inadimplente como um marginal. Precisamos mudar essa cultura. Com Open Finance, mais concorrência e tecnologia, vamos caminhar para modelos que devolvam paz e dignidade mesmo a quem está devendo."
"Sim. A cultura da Porto me deu liberdade para implantar esse modelo humanizado. Nos bancos anteriores, o modelo era mais agressivo. Aqui, temos propósito, e isso engaja inclusive os mais jovens do time."
"Sim. Temos indicadores de inadimplência melhores que a média dos bancos médios. Além disso, o time entende que cobrar é devolver dignidade. Isso muda tudo."
"Políticas são organismos vivos. Precisam ser ajustadas conforme mudam os cenários, os contextos éticos e sociais. Não faz sentido ter muita exceção; se isso acontecer, a política precisa mudar."
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